AS MARISQUEIRAS DE SERGIPE carregam muitas histórias e constroem uma cultura, um legado e uma luta pela sobrevivência disso tudo. Essas histórias fazem parte da construção de costumes e envolvem muitos aspectos culturais, os elementos que moldam a resistência em suas atividades cotidianas e tecem a história que vivemos enquanto sociedade devem permanecer fortes nas memórias. As populações que beiram os rios deixam uma forte herança histórica na cultura da nossa nação e banham Sergipe com suas riquezas culturais.
Durante pesquisas e leituras, o estudo de Vanda Maria Dantas foi pilar para nossa concepção teórica acerca dessa resistência de vidas que sobrevivem nos mangues e pelos mangues. Os gritos de socorro de uma linhagem e construção cultural são expostas durante visitas aos povoados de Muculanduba (Estância), Pedra Furada (Santa Luzia do Itanhy) e Terra Caída (Indiaroba).
As histórias e capítulos das famílias de três personagens são retratadas e resgatadas durante as passagens em cada cidade e em cada parte dessa construção histórica e viva.
MUCULANDUBA: NO MANGUE, A SIMBIOSE DA VIDA
A quase setenta quilômetros de Aracaju, em Estância, o povoado Muculanduba abriga 80 famílias e respira a mariscagem. Com a bandeira do Movimento de Marisqueiras de Sergipe (MMS), do qual ela é presidente, Geonísia Vieira, 55, conhecida como Nice, diz se orgulhar da atividade que exerce há quarenta e oito anos. “Eu sou marisqueira. Desde os meus 7 anos de idade a minha luta é essa: trabalhar no mangue”, declara.

Geonísia Vieira, em frente a sua
casa, vestindo a camisa do MMS
Natural de Pernambuco, ela desembarcou em terras sergipanas ainda pequena, aos sete anos. Foi trazida pelo pai, que era pescador, e registrada em um cartório de Itaporanga d’Ajuda, no leste de Sergipe. Desde pequena, Nice e os irmãos assistem às idas e vindas das marés, um elemento primordial para uma família genuinamente pescadora. Hoje apenas ela está na atividade, com percalços, vale dizer; os demais moram no Rio de Janeiro e têm outras ocupações profissionais.
Foi através da mariscagem que Nice conseguiu criar seus três filhos, que seguem os passos da mãe. “Essa é a minha sobrevivência e pra mim é o meu orgulho porque é onde eu tiro o meu sustento, onde eu criei meus filhos, sabe? Eu criei [os filhos] no trabalho da maré, no trabalho do mangue”, afirma.
É no mangue, um ambiente que recebe esse nome graças à presença de manguezais e cuja vegetação possui um poder de tolerância ao sal, que acontece uma verdadeira simbiose. Entre as gaiteiras (nome dado às árvores cujas raízes são vistas na superfície) que se conectam pelas tramas do invisível, encontra-se vida sendo carregada pelas águas - e pela lama.
O trabalho no mangue é uma via de mão dupla, que concentra perdas e ganhos. Apesar de ser uma atividade de onde Nice retirou - e retira - o sustento da família, enfrentar as marés da vida é uma tarefa difícil. Os desafios são inúmeros, entre eles o avanço da carcinicultura, uma técnica de criação de camarão em cativeiro. A prática é vista pelas marisqueiras como algo prejudicial ao ecossistema da mariscagem por resultar na morte dos mariscos.
Segundo os relatos feitos à reportagem, os carcinicultores, ao implementar os viveiros, derrubam árvores nativas, como mangabeiras, utilizam agrotóxicos letais aos mariscos e chegam a proibir a circulação de pessoas em um raio de 2 metros das instalações. A determinação impede que as marisqueiras rumem em direção ao mangue, já que os cativeiros ficam nos arredores do espaço onde elas exercem a cata.
O DERRAMAMENTO DE ÓLEO
Outro momento desafiador para a comunidade de marisqueiras em Muculanduba, Nice afirma, foi quando manchas de petróleo não-refinado apareceram no litoral do Nordeste, em agosto de 2019. Em Estância, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) identificou o óleo na Praia do Abaís, um ponto turístico da cidade. Ao todo, dez localidades registraram o aparecimento do petróleo em Sergipe - na região foram mais de 1 mil.
“O maior sacrifício que a gente teve, a maior dor da vida da gente foi só o derramamento de petróleo, né?! Essa foi a principal dor”, relembra. Neste período, inúmeras famílias ficaram sem trabalhar, já que o óleo também contaminou os animais marinhos e, por isso, eles não podiam ser vendidos pelos pescadores e marisqueiras.
Após dois anos de investigação, a Polícia Federal concluiu que um navio petroleiro grego, da empresa Delta Tankers, foi o responsável pelo derramamento da substância no mar. A empresa, além do comandante e do chefe de máquinas da embarcação, foram indiciados pela prática dos crimes de poluição, descumprimento de obrigação ambiental e dano a unidades de conservação. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público Federal, a quem cabe denunciar os indiciados.
Um relatório produzido pela Comissão Temporária Externa do Senado, criada para acompanhar as ações de enfrentamento às manchas de petróleo no litoral brasileiro, critica a demora do governo federal em atuar na mitigação dos danos. O documento, de autoria do senador Jean Paul Prates (PT-RN), diz que houve atraso no acionamento do Plano Nacional de Contingência (PNC) e aponta a falta de articulação entre a autoridade federal e os estados atingidos.
À época, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento chegou a informar que pouco mais de 7 mil pescadores sergipanos afetados pelas manchas de óleo receberiam um auxílio no valor de R$ 1.996, dividido em duas parcelas de R$998. Para ter direito ao benefício, segundo a pasta, era preciso estar cadastrado no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP). A reportagem tentou acessar a relação com o nome dos beneficiários, mas o link fornecido pelo Ministério saiu do ar.
Nice conta que a comunidade só pôde contar com a ajuda de organizações sociais durante esse período, como o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), que doou alimentos em um gesto semelhante ao registrado no dito popular “a união faz a força”. Depois de uma ampla articulação com a Petrobrás, a comunidade passou a receber um auxílio de cestas básicas da estatal.
O COVID-19
A pandemia também deixou marcas inesquecíveis no povoado, entre elas a da fome. “Depois dessa dor, só a pandemia [de covid-19], porque a nossa comunidade passou fome”, diz Nice. Desde a deflagração, em março de 2020, o município de Estância registrou 9.130 casos positivos e 184 óbitos pelo novo coronavírus, segundo um boletim epidemiológico, divulgado pela Prefeitura na última sexta-feira (11). [Não há dados específicos sobre a contaminação em Muculanduba, onde a marisqueira mora.]
"Nós passamos por isso e nem prefeito, nem vereador, nem ninguém nos ajudou. Quem nos socorreu foram outros movimentos, como o CPP, que é o Conselho Pastoral dos Pescadores, com o envio de alimentos”, afirma.
“E eu como conselheira [do Conselho Gestor do Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras - PEAC], junto com outras marisqueiras, lutamos com a Petrobrás para conseguir algumas cestas básicas e ajudar a comunidade”, completa.
A reportagem perguntou ao prefeito de Estância, Gilson Andrade (PSD), quais as ações de auxílio financeiro do município voltadas à mariscagem foram implementadas durante a pandemia, mas ele não respondeu.
A COMUNIDADE MARISQUEIRA
COLETIVIDADE. Esta parece ser a palavra que melhor define os encontros das marisqueiras quando catam seus mariscos. Em Muculanduba, ninguém vai ao mangue sozinha. É preciso estar em bando, com as companheiras de mariscagem. Além da exposição aos perigos da natureza, as mulheres que pescam a sobrevivência também têm de conviver com a violência de quem, em tese, deveria protegê-las.
Nice carrega consigo uma ferida que ainda não cicatrizou - e talvez demore. Uma companheira de cata foi assassinada a facadas pelo ex-companheiro dentro do ambiente no qual ela costumava pescar o sustento. O caso aconteceu no povoado de Rua da Palha, a poucos quilômetros de Muculanduba.
A marisqueira, cuja identidade será preservada pela reportagem, havia ido ao mangue sozinha, como conta Nice. "Ela foi para o mangue pegar aratu [uma espécie de caranguejo] e o homem [o ex-companheiro] a seguiu sem que ninguém percebesse. Quando as companheiras ouviram foram os gritos dela enquanto ele a esfaqueava, infelizmente, né?! O corpo dela ficou lá [no mangue] até o IML [Instituto Médico Legal] chegar", relembra.
O cotidiano em Muculanduba é moldado a partir da força das marés do Rio Piauí, que também banha os municípios de Indiaroba e Santa Luzia do Itanhy. Segundo o Boletim Estatístico da Pesca nos Litorais de Sergipe e Extremo Norte da Bahia, cerca de 700 pescadores de Estância têm o despertar e o sono embalados pelo rio, que também lhes proporciona sustento. Vale dizer que os dados são de 2014 e não fazem distinção entre pescadores e catadoras de mariscos, mas dão o tom de como as águas são a extensão deste povo.
PEDRA FURADA: É POSSÍVEL ENCONTRAR
LEVEZA NO REFAZER COTIDIANO
Distante um pouco mais de dez minutos de Estância, o povoado de Pedra Furada, em Santa Luzia do Itanhy, faz brotar bons sentimentos, afeto e história em uma só toada. O local recebe esse nome porque, segundo os relatos de moradores mais antigos, um casal de andarilhos encontrou uma fonte, localizada em uma pedra, da qual jorrava água de boa qualidade e resolveu batizar o povoado de ‘Pedra Furada’.
É lá que a resiliência de Maria José, 50, conhecida por Ninha, se refaz a cada dia. Com as águas do Rio Piauí ela sustentou sua família desde a adolescência até os dias de hoje. O rio, aliás, se tornou uma extensão de si e é sua única fonte de renda. Sem a mariscagem de sururu, aratu e ostra falta alimento na mesa. “Eu sobrevivo apenas disso”, diz.
“Vamos para a maré?”, perguntou Ninha assim que a reportagem chamou à porta de sua casa. Ela veste um sorriso contagiante e esboça sagacidade em cada palavra. O percurso até o seu local de trabalho demora pouco mais de 7 minutos, mas é feito com maestria por Ninha, que há mais de uma década faz esse mesmo caminho. A marisqueira tem nas mãos uma vara de pescar improvisada e carrega consigo um balde branco, onde trará os mariscos para a casa. As mangabeiras e coqueiros, além dos frutos, acompanham o trajeto e emprestam sombra em meio ao sol da tarde.

A ROTINA
A labuta de Ninha se inicia ainda quando os primeiros raios de sol brotam no céu. Naquele dia, no entanto, ela esperou a reportagem chegar em Pedra Furada antes de ir à maré. Em dias comuns, as marisqueiras costumam sair de suas casas ainda às 6h da manhã. O horário de retorno é incerto: às vezes o caminho da volta é feito à tarde ou mesmo quando já se passaram muitas horas desde que a noite chegou.
Depois do mangue, é o momento de voltar para a casa e cuidar do alimento. “Aquela pessoa que vai com sua lata na cabeça na direção de sua casa, vai satisfeita com o balde cheio. Naquela satisfação de chegar em casa com aquele balde, comer alguma coisa e fazer esse trabalho de paciência que é preparar o marisco”, diz Ninha.
O trabalho fica fácil quando se tem ajudante. Em uma varanda próxima à casa da marisqueira, Edila Souza, 18, ajuda a mãe no trato do marisco. Sentada em uma cadeira de plástico e com uma bandeja sobre as pernas, ela limpa e prepara os mariscos para a venda e consumo próprio. Na porta de casa, enquanto limpam o catado, as marisqueiras também esperam a chegada do atravessador, cujo papel é levar os produtos aos compradores. A relação entre marisqueira e atravessador, no entanto, não é tão cordial quanto parece.



OS ATRAVESSADORES
As críticas aos atravessadores se dão, sobretudo, pela forma injusta com que o preço do catado é determinado. Isso porque os profissionais lucram às custas do suor e do esforço das marisqueiras. Além disso, pagam um preço baixo por um produto limpo e o vendem por um valor até três vezes superior a restaurantes. Em Muculanduba, esta foi uma realidade abolida há pouco tempo.
“Depois do movimento das marisqueiras, a gente aprendeu que nós temos que valorizar aquilo que a gente tem, aquilo que a gente trabalha. Então, se eu vou para o mangue e cato 1 kg de ostra, que aqui tá custando 40 reais, o atravessador só quer dar 20 [reais]. Aí ele vai para Salvador [capital da Bahia] e vende por 70, 80 [reais]”, declara. Em Pedra Furada, no entanto, ainda há a predominância da relação atravessada do atravessador - alvo de insatisfação das marisqueiras. “[um dos maiores problemas] é o atravessador, que paga o preço que [ele] quer”, resume Ninha.
AS CANTIGAS
Apesar de todas as dificuldades, as marisqueiras ainda encontram lazer em meio aos seus afazeres diários nas marés - no mangue, poesia e perigo andam juntos. Um desses lazeres vem das cantigas cantadas enquanto elas performam a mariscagem.
Segundo Ninha, as marisqueiras costumam cantar quando estão na cata, principalmente a do aratu, uma espécie de caranguejo, porque elas percebem que o animal é atraído pela cantoria. Mesmo sendo um momento de lazer, é importante ficar alerta aos perigos do mangue, pois o canto também chama outros animais. “Chega uma mutuca [espécie de mosca cujas fêmeas se alimentam de sangue], a gente tem que ficar calada”, relata Ninha. “E também tem que tomar cuidado, porque às vezes também tem cobra na maré”, acrescenta.
Qualquer música pode ser escolhida pelas marisqueiras na hora da cata. No entanto, as preferidas são as suas próprias cantigas. À reportagem, Ninha cantou o famoso “Hino das Marisqueiras”, canção criada pelo cineasta e ex-professor do PEAC, Pedro Bomba. Os versos representam toda a luta dessa população descrevem a rotina de idas e vindas ao mangue em busca de sustento.
“Sou, sou marisqueira. Rainha do mangue, sou guerreira. Sou, sou marisqueira. Mulher de luta, trabalhadeira”, canta a marisqueira, sentada em uma pequena embarcação utilizada para driblar as águas do Piauí.
TERRA CAÍDA: DA MARÉ À MESA
As águas do Rio Piauí ligam e desenrolam os fios invisíveis da memória entre as marisqueiras artesanais de Sergipe. Cerca de 20 quilômetros separam e aproximam, ao mesmo tempo, o povoado de Terra Caída, em Indiaroba, da comunidade de Pedra Furada, em Santa Luzia do Itanhi.
Inúmeras versões dão conta de explicar a origem do povoado que, segundo relatos dos moradores, chegou a ser chamada de Cajueirinho durante o final do século XIX devido à grande quantidade de cajus. A primeira diz respeito a uma briga entre os pescadores da vila com moradores de um sítio localizado a 1 quilômetro dali, no Coqueiro. Para menosprezar os rivais, os pescadores do Coqueiro passaram a chamar a outra vila de Terra Caída. O apelido pegou.
Resta espaço, ainda, para uma descrição religiosa sobre o nome do povoado - que oficialmente se chama Praia de São José, devido à presença de devotos fervorosos do santo. Quando a Igreja ainda governava, um padre teria desembarcado na comunidade para rezar uma missa e poucos fiéis compareceram. Da chateação pelo flop à praga: o religioso, contam, subiu na canoa que o trouxe, bateu os chinelos e desejou que as terras continuassem caídas até a eternidade.
É nesta teia de saberes que Maria Assunção, 37, ou Suli, dá seguimento à mariscagem, ofício herdado dos avós e passado às gerações seguintes. Foi aos onze anos que ela foi ao mangue pela primeira vez - e contra a vontade da mãe, que resistia à ideia. “Eu insisti e ela me levou. Nesse dia eu atrapalhei ela. Ela não pegou nenhum e eu peguei uns cinco [aratus]. Fiquei tão feliz”, relembra.

entre conversas e sorrisos, Suli lembra de momentos que marcaram sua trajetória.
De voz comedida e poucas palavras, a marisqueira é conhecida pelas doses de sabedoria e maturidade. Apesar de complementar sua renda com outros serviços, ela diz que prefere a cata do marisco. O trabalho no mangue, conta, lhe proporciona maior autonomia. “A maré é uma terapia pra gente”, resume. Enfrentar as marés da vida, no entanto, não é tarefa fácil, principalmente quando as condições mínimas de sobrevivência minguam.
O acesso à saúde é um dos inúmeros desafios. “Um dos piores [desafios] é não ter assistência [médica]. De um ginecologista, não temos nenhum acompanhamento, não temos auxílio de nada”, alerta. O relato de Suli não é exceção em meio às marisqueiras: Nice e Ninha também são testemunhas da inacessibilidade ao atendimento de qualidade.
No Brasil, inúmeras comunidades tradicionais carecem de atenção do Estado. Além disso, os programas de saúde voltados a este público-alvo têm sido alvos da ‘tesoura’ do governo federal. A reportagem teve acesso a um boletim produzido pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde em parceria com a Umane, uma entidade sem fins lucrativos, com base na previsão orçamentária para o Ministério da Saúde em 2023 enviada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) ao Congresso.
De acordo com o documento, o programa de Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde Indígena e Estruturação de Unidades de Saúde e Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) para Atendimento à População Indígena teve o orçamento reduzido em 60% se comparado com 2022, uma perda de R$ 910 milhões.
Outro mecanismo da pasta, o de promoção da Atenção à Saúde de Populações Ribeirinhas e de Áreas Remotas da Região Amazônica, também viu R$ 10 milhões desaparecer do seu orçamento em um intervalo de 1 ano. Somados, os cortes já chegam à casa dos R$ 3 milhões, segundo projeção do Conselho Nacional de Saúde (CNS).
O CNS aponta, ainda, que a previsão de redução no orçamento da Saúde deve chegar a 60 bilhões de reais considerando-se o teto de gastos, regra fiscal que limita os gastos do governo às despesas do ano anterior corrigidas pela inflação. Na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), o governo prevê um saldo de R$ 150 bilhões para a área, o menor nível dos últimos dez anos. O impacto dos cortes, vale dizer, é maior nos rincões do Brasil, onde o acesso já é ínfimo.
Sobre os relatos de dificuldades para ter o direito constitucional à saúde assegurado, o prefeito Adinaldo do Nascimento (MDB) afirmou que o município conta com uma equipe médica para atender as comunidades de marisqueiras. Disse, ainda, que estuda fechar parcerias com entidades estaduais, como a Fecomércio, para garantir mutirões com ginecologistas nas comunidades.
A reportagem também procurou o Ministério da Saúde para comentar a redução no orçamento da pasta e aguarda retorno.
Outro ponto de conflito é o avanço da carcinicultura nos territórios das marisqueiras. A técnica de criação de camarão em cativeiros é regulada pela Lei nº 8.327, promulgada pelo então governador de Sergipe Jackson Barreto (MDB). Apesar de o estado considerá-la uma atividade de “relevante interesse social e econômico” e que estabelece “uma nova ordem econômica e social no meio rural”, a carcinicultura também destruiu sonhos das marisqueiras.
Com a implementação dos viveiros, segundo relatos, inúmeras árvores são derrubadas, como mangabeiras, e os mariscos, fonte de renda das marisqueiras, acabam morrendo em grande escala através da implementação de agrotóxicos, cujos danos ao mangue são irreparáveis. Além disso, os produtores de camarão ainda proíbem a circulação de pessoas próximo aos cativeiros, que geralmente são instalados nos arredores dos locais onde as marisqueiras exercem sua atividade.
Para o assessor técnico do PEAC, Bruno Nascimento, a expansão da carcinicultura, apesar de contribuir com o desenvolvimento econômico, traz prejuízos ao ecossistema dos mangues e impacta negativamente a mariscagem.
“É uma atividade extremamente nociva e que realmente traz muitos problemas, não só pela forma como [os viveiros] são construídos, o que cerce a entrada e saída de espaços onde pescadores, marisqueiras costumam exercer suas atividades laborais”, diz. “A própria ração que se usa, por exemplo para alimentar os camarões, também traz muitos impactos pro mangue, porque os dejetos do camarão são jogados na natureza [de forma] imprópria, e isso agride diretamente os mangues e os estuários”, completa.
Sergipe é o quarto maior produtor de camarão no Brasil, segundo dados da Pesquisa da Pecuária Municipal, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - o estado fica atrás apenas do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. A posição é motivo de orgulho para o engenheiro agrônomo e ex-secretário estadual de Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca (Seagri), André Luiz Bonfim.
Os relatos de que a utilização de tóxicos na criação dos crustáceos tem impactado na mariscagem, Bonfim alerta que é preciso maior fiscalização do Ibama e da Administração Estadual de Meio Ambiente (ADEMA). “Na nossa visão, a produção de camarão a grande maioria respeita a questão ambiental, mas é necessário uma conscientização ainda maior, pois ainda tem produtores que acabam invadindo a área de preservação permanente para essa produção”, defende.
A redução no Orçamento pode chegar a R$ 60 bilhões, segundo o boletim do IEPS.

fazenda de camarão em Indiaroba
reprodução: MFRural
MARCAS INESQUECÍVEIS
O derramamento de petróleo significou muito mais que um simples desastre ambiental no país. Para Suli, esse interregno traumático trouxe muito mais que a incerteza de ter o que comer no dia seguinte, mas o mal-estar físico após inalar a substância. Ela carrega consigo as lembranças de quando capturou em sua rede, por engano, um fragmento de petróleo cru. Em seguida, conta, sentiu um mal-estar e desmaiou.
Segundo Suli, o então diretor de pesca de Indiaroba, conhecido por “Totonho”, visitou-a após ter conhecimento do episódio. A marisqueira relata, ainda, que ele teria solicitado uma amostra do material ‘pescado’ para análise, mas até hoje não se sabe qual o resultado da suposta apuração. A reportagem tentou contato com o homem citado diversas vezes, sem sucesso.
Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o contato direto com o óleo pode provocar irritações na pele, rash cutâneo, queimação e inchaço; sintomas respiratórios, cefaleia e náusea; dores abdominais, vômito e diarreia. O efeito mais temido de longo prazo é a ocorrência de câncer, em especial alguns tipos de leucemia. Os pesquisadores da Fiocruz alertam que a exposição a esse produto deve ser reduzida ao mínimo.
A notícia da captura de petróleo não chegou à Seagri quando Bonfim chefiava a pasta. Ele deixou o cargo em agosto de 2021 e passou o bastão para o ex-deputado Zeca da Silva. “Não [foi notificado sobre o caso]. De forma alguma, nem quando eu estava (sic) secretário”, diz.

"não foi mais de um minuto, comecei a passar mal e vomitar. cheguei em casa com febre"
Suli, marisqueira
MOEDA ARATU
Um movimento parece despontar como a tão sonhada valorização da mariscagem em Indiaroba. Trata-se da Lei nº 645/2022, de 23 de fevereiro de 2022, que criou uma criptomoeda batizada de “Moeda Aratu”. O aratu é uma espécie de caranguejo, presente nos 60 km de manguezais que margeiam o município. O crustáceo é o recurso pesqueiro mais produzido pela pesca em Indiaroba.
É através da moeda que os indiarobenses conseguem realizar transações financeiras com a ajuda de um cartão pré-pago ou pelo celular. O Banco Digital Popular de Indiaroba pode ser utilizado por todos os moradores da cidade, sem taxas de abertura e de manutenção para os usuários. Segundo a prefeitura, o projeto tem o objetivo de “garantir a inclusão financeira daqueles que ainda não têm acesso a uma conta bancária”.
Na contramão desse movimento, o prefeito Adinaldo do Nascimento parece desconhecer a própria economia da cidade. Depois de beneficiar carcinicultores com a compra e distribuição de camarões na merenda escolar em um gesto de apoio à atividade, ele confidenciou a interlocutores desconhecer que em Indiaroba existia Aratu - Nascimento assumiu a gestão em 2021, mas se declara agricultor.

cartão da Moeda Aratu
O QUE ESPERAR DO FUTURO?
A vida nas marés vai muito além de atividades de sustento. As práticas são parte da estruturação do património e identidade das populações costeiras, e constroem as raízes do respiro cultural dessas comunidades. A modernização permite escolhas de novos caminhos para as gerações que estão vindo, mas as práticas, que foram transmitidas através de saberes e vivências dessas famílias que se estruturam nos rios e mangues, deixam marcas.
A reportagem perguntou às três marisqueiras qual a percepção do futuro da mariscagem. Em cinco anos, Suli, sentada no centro de uma mesa de madeira da residência onde ela trabalha, diz esperar a extinção da atividade a que ela se dedica desde pequena - daí o desejo de ver seus filhos alçando voos mais altos através dos estudos.
Por outro lado, Nice, em Muculanduba, e Ninha, em Pedra Furada, esperançam novos caminhos para a cata de mariscos, onde atuam há mais de três décadas. Com ressalvas, ambas admitem que é preciso ter cautela no trato com o território para que ele continue a prover o sustento de outras famílias sergipanas. Em um futuro próximo, serão os filhos e netos delas, hoje já introduzidos na pesca, que desenrolarão o fio de saberes sobre a mariscagem.
Assessor técnico do PEAC, Bruno Nascimento diz não ser possível antever o futuro da atividade no estado, mas ressalta a importância do autorreconhecimento como importante ferramenta para resistir ao avanço do capitalismo. “Não só o fortalecimento da identidade, mas como os seus modos de vida, a defesa do seu território e aí isso envolve também titulação, demarcação de terras, que é uma das lutas que as comunidades tradicionais também travam, né?!”, afirma.
Apesar das perdas populacionais e territoriais, as marisqueiras de Sergipe saem para mariscar no horário da maré e só retornam quando estão com os baldes cheios de alimentos. A ida ao trabalho também é uma forma de compartilhar sorrisos e razões para encarar de frente a dureza da vida. Rainhas do mangue, elas criam com a delicadeza dos pequenos-grandes gestos um novo caminhar.
E assim as marés da vida vão e vêm, com fluidez, saberes, cheiros, cores e memórias que contam as histórias do mangue, da pesca, do trabalho e da força dessas marisqueiras.

o futuro da pesca em 5 anos?



















